segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Fidel Castro está agonizando

Bastou uma mensagem aos formandos do primeiro curso do Instituto de Ciências Médicas “Victoria de Girón”, para que o galinheiro da propaganda imperialista se alvoroçasse e as agências informativas se lançassem com infâmia voraz para as mentiras. Não só isso, mas em suas notícias adicionaram ao paciente as mais absurdas estupidezes.

Por Fidel Castro, no CubaDebate




O jornal ABC da Espanha publicou que um médico venezuelano radicado em ninguém sabe onde, revelou que Castro sofreu um derrame na artéria cerebral direita, “posso dizer que não voltaremos a vê-lo publicamente”. O suposto médico, que se é abandonaria primeiro seus próprios compatriotas, qualificou o estado de saúde de Castro como “muito perto do estado neurovegetal”.

Apesar de muitas pessoas no mundo serem enganadas pelos meios de comunicação de massa – quase todos em mãos dos privilegiados e ricos, que publicam estupidezes – os povos acreditam cada vez menos neles. Ninguém gosta de ser enganado; até o mais incorrigível mentiroso espera que lhe digam a verdade. Todo mundo acreditou, em abril de 1961, nas informações publicadas pelas agências de notícias, que os invasores mercenários de Girón ou Baía dos Porcos, como queiram chamar, estavam chegando a Havana, quando na realidade alguns deles tentavam chegar infrutiferamente em botes até os navios de guerra ianques que os escoltavam.

Os povos aprendem e a resistência cresce diante da crise capitalista que se repete cada vez com maior frequência; nenhuma mentira, repressão ou armas novas poderão impedir a queda de um sistema de produção crescentemente desigual e injusto.



Há alguns dias, perto do 50º aniversário da “Crise de outubro”, as agências indicaram três culpados; Kennedy, um recém-chegado à liderança do império, Khruchev e Castro. Cuba não tinha nada a ver com armas nucleares, nem com a matança desnecessária de Hiroshima e Nagasaki, perpetrada pelo presidente dos Estados Unidos, Harry S. Truman, que instituiu a tirania das armas nucleares. Cuba defendia seu direito à independência e à justiça social.

Quando aceitamos a ajuda soviética de armas, petróleo, alimentos e outros recursos, foi para nos defender dos planos ianques de invadir a nossa Pátria, submetida a uma suja e sangrenta guerra que este país capitalista nos impôs desde os primeiros meses, ao custo de milhares de vidas e mutilados cubanos.

Quando Khruchev propôs instalar mísseis de médio alcance semelhantes aos que os Estados Unidos tinham na Turquia – ainda mais perto da URSS que Cuba dos Estados Unidos – como uma necessidade solidária, Cuba não vacilou em aceitar tal risco. Nossa conduta foi eticamente irrepreensível. Nunca pediremos desculpa a ninguém pelo que fizemos. O certo é que transcorreu meio século e ainda continuamos de cabeça erguida.

Gosto de escrever e escrevo; gosto de estudar e estudo. Há muitas tarefas na área dos conhecimentos. Nunca as ciências, por exemplo, avançaram em tão surpreendente velocidade.

Deixei de publicar as Reflexões porque certamente não é meu papel ocupar as páginas da nossa imprensa, consagrada a outras tarefas de que o país precisa.

Aves de mau agouro! Não lembro sequer o que é uma dor de cabeça. Como evidência de quão mentirosos são, os presenteio com as fotos que acompanham este artigo.


Fidel Castro Ruz

Fonte: Cuba Debate
Tradução própria

sábado, 13 de outubro de 2012

Oportunidad, realidad y sueños en São Paulo*


A pesar de las turbulencias políticas que viene sufriendo el Paraguay, a la distancia continuamos nuestra vida cotidiana, de lucha, de perseverancia, de seguir soñando en volver, mas siempre con la preocupación de cual sea la situación del país, de la familia, de los amigos.



Lo que última mente me ha llamado mucho la atención de mis compatriotas, ha sido las cantidades de jóvenes que continúan llegando aquí en São Paulo, a buscar una oportunidad de trabajo. Trabajo este que no conseguimos en nuestro país, en nuestro “valle” como seria mas propicio llamarlo, mas llegando aquí uno se depara que puede hacer “lo que venga” y se termina en oficinas de costuras, trabajando hasta altas horas de la noche o cuidando criaturas que nunca pensábamos hacer.

Esta es una realidad que está mudando a pasos muy lentos, porque muchos comienzan a preguntarse, porque trabajar tanto si los brasileños trabajan menos y ganan mas? Es también una realidad que aumentaron los documentados, a través del acuerdo migratorio del MERCOSUR y una cantidad considerable pasó a trabajar como las leyes obligan aquí en Brasil. Pero todavía hay mucho que trillar.

Un asunto muy importante, que muchos ya me preguntaron y se habrán preguntado alguna vez aquí en este país es, porqué los bolivianos tienen tantos Grupos folclóricos? porque ellos tienen la plaza Kantuta? Porque los koreanos tienen tantos restaurantes? Ellos son mas organizados que nosotros verdad?

Eso há sido fundamental para tocar un tema que la mayoría de los paraguayos odiamos, que es la organización, porque trata de política. En su mayoría los paraguayos damos un paso atrás para evitar el tema “organización” especialmente porque es “política” y nadie quiere ser político, por el pasado reciente y la realidad vergonzosa que tenemos de los supuestos representantes del pueblo, "los políticos".

"Todos somos políticos"

Con esas preguntas hechas para si mismos, creo que muchos ya se dieron cuenta que la verdad todos somos políticos y el camino para tener una “Casa Paraguaya”, una plaza con identidad guaraní, es la organización y cuando sean parte de una organización, tendrán el momento de expresar sus ideas (política) para ayudar a sacar adelante la comunidad paraguaya en São Paulo, debatiendo los problemas y buscando una solución en conjunto.

Una conquista importante de los paraguayos en el exterior, fué la victoria del “SI” obtenida durante el referéndum del 09 de octubre de 2011, donde los paraguayos que residimos fuera también pasamos a ser “electores” para poder decidir el futuro del Paraguay, eligiendo personas comprometidas con el desarrollo del pais, con la mudança del art. 120 de la Constitución paraguaya através de una enmienda aprovada en referendúm.



Esta conquista no será posible ejercer por los paraguayos que vivimos en Brasil, por causa de irresponsables burócratas estatales, que pasan viviendo a costillas del estado, que no vieron en la ciudad de  São Paulo ninguna playa para turistear, para que sea tentadora la propuesta de venir a inscribirles a los compatriotas con miras a las elecciones de abril del 2013.

Es imposible de creer, pero los paraguayos continuamos a ser afectados por ese estado que nos debería de proteger y asegurarnos nuestro derecho, así como exigen que se cumpla la constitución.

Ojalá que después de leer estas líneas mas jóvenes se sumen a esta idea de “organización”  para conquistar mas sueños lejos de nuestra patria y así volver a creer que somos capaces de conseguir los proyectos que nos proponemos, destacándonos como alguna vez el Paraguay lo fue.

Sé que podemos y juntos seremos mas fuertes!

Añuá mbareté! Fuerte abrazo!

*Léo Ramirez paraguayo, migrante, excosturero y estudiante de Relaciones Internacionales. Miembro de la Asociación Japayke.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"Temos que nos preparar para a guerra, para viver em paz" diz Ministra de Defesa do Paraguay


A ministra de defesa do Paraguai, Maria Liz Garcia quem é a nomeada pelo país mais democrático do mundo (EUA), nomeada a defender os interesses geopolíticos na região Sul-Americana, especificamente no Paraguai.

Garcia usa o mesmo discurso que seu pais de origem, quando se refere a democracia, liberdade de imprensa, direitos humanos e autodeterminação dos povos, que são os pilares do direito internacional público. Fica mas que transparente a verdadeira e real intenção desta mulher posicionada numa chave dentro de um governo usurpador, não é o bem estar do povo guarani, sua nação por opção, especialmente quando confessa "temos que nos preparar para a guerra, para viver em paz", querendo assim eludir a sanção imposta ao Paraguai pelo MERCOSUL e a UNASUL depois do golpe paramentar, desenhada no norte e perfeitamente aplicada pelo congresso conservador o dia 22 de junho.

Assim tiram do poder a Fernando Lugo, eleito democraticamente com voto popular em 2008, com mas de 80% de aprovação que também acabou com a hegemonia do Partido colorado que estava a mas de 60 anos no poder.

 A América Latina nunca teve um momento tão especial quanto na atualidade, percebemos no dia a dia e nos campos  acadêmicos, na mídia alternativa, que está em curso a construção de uma identidade para a segunda e verdadeira independência, que é, na pratica a construção e fortalecimento de blocos políticos, econômicos e  culturais por parte dos governos latino-americanos.

Esta senhora de formação acadêmica Washingtoniana indigna em seu discurso (ou entrevista) dada ao jornal (ABC Color) conservador por cultura e conveniência aos interesses forâneos, quando comenta a geopolítica como o Friedrich Ratzel, quando na verdade não passa de ser um pequeno mascote querendo agradar o dono com falsos latidos e assim incomodar a vizinhança.

Essa vizinhança que atravessa por seu melhor momento, como de fato a América Latina vem traçando seu próprio caminho para assim decidir seu destino e se desligar  dos projetos forâneos que a única coisa que causam é instabilidade política, econômica e miséria.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Bruno Peron: Cinismo migratório no Brasil


O fluxo migratório de trabalhadores entre Brasil e exterior é bidirecional. Farei, contudo, alguns comentários sobre aquele que se tem estabelecido na direção de fora para dentro. O país continua enviando migrantes (sobretudo estudantes e trabalhadores) ao exterior, embora em números menores e a destinos mais variados. A diferença, porém, é que o país tem recebido muito mais estrangeiros em busca de trabalho nos últimos anos.

Por Bruno Peron*

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) divulgou em julho de 2012 a informação de que, no intervalo de um ano, houve aumento de 25% na migração de trabalhadores ao Brasil. Em 2010 e 2011, o número de estrangeiros que receberam permissão para trabalhar no Brasil foi de, respectivamente, 56 mil e 70 mil. Nos anos imediatamente anteriores a 2010, o número de autorizações para trabalhadores imigrantes era pouco maior de 40 mil.

Dados da OIT indicam que a maior parte dos imigrantes (89,6%) é do sexo masculino e escolhe alguma cidade da região Sudeste (88,2%), principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. Não entram nestas estatísticas os estrangeiros que trabalham ilegalmente no Brasil. A maior parte dos ilegais são mal remunerados e enfrentam jornadas longas de trabalho, por exemplo bolivianos na indústria têxtil em São Paulo, paraguaias como empregadas domésticas no Paraná, e haitianos que cruzam a fronteira amazônica sem saber quanto ganharão, se é que conseguirão emprego. A última notícia que chega dos migrantes do Haiti é que uma centena deles está numa pequena cidade peruana fronteiriça em busca de recursos para a sobrevivência, o que o governo peruano declarou como questão de Estado entre Peru e Brasil.

A crise financeira dos países outrora chamados "desenvolvidos" (portanto não é uma crise mundial, mas de países hoje decadentes) expele vários trabalhadores à América Latina. A Espanha tem 24% de desemprego. A Grécia está à beira do colapso e ameaça desligar-se da União Europeia. O Reino Unido finge que está tudo bem, mas solicita a James Bond para que entrem muitas libras com as Olimpíadas para aliviar o sufoco de sua economia. Os Estados Unidos estimulam guerras (Egito, Líbia, Síria) para que sua economia bélica não estanque.

O Brasil, enquanto isso, abre portas aos trabalhadores estrangeiros que, durante muito tempo, estiveram fechadas aos brasileiros que chegaram a seus países. Exigiram-nos vistos (taxas, filas nos consulados e entrevistas), impuseram-nos humilhações nas fronteiras (as maiores queixas vieram da Espanha), pagaram-nos os piores salários aproveitando-se da falta de documentos que autorizem o trabalho, não reconheceram nossos estudos (no Canadá, muitos doutores brasileiros só tiveram reconhecimento de seu nível de graduado ou mestre). E agora se dizem interessados no "crescimento" brasileiro. Um cinismo.

O processo migratório atual é bidirecional e contraditório. Os estrangeiros têm-nos procurado. Empregam-se por aqui porque por lá falta trabalho. Concomitantemente, há uma curiosidade crescente deles por nossa economia, gastronomia, música, etc., que até pouco tempo eram para eles atividades exóticas de um turismo de aventura, já que a "América" se resumiu – e ainda se resume – ao território dos Estados Unidos.

O governo brasileiro tem tomado uma atitude distinta da dos governos dos recém-chegados. É bem menos rígido. Dá-lhes a chance calorosa de entrar pela porta da frente e desfrutar dos mesmos direitos de um cidadão brasileiro. O Ministério do Trabalho aumenta os vistos de trabalho para que mais estrangeiros participem do "boom" brasileiro.

A genuinidade ou não do "boom" é tema para outro texto. Por ora, os dados da OIT de julho de 2012 nos informam sobre novas tendências no fluxo migratório. Uma de suas características é a resistência da nossa economia ao vento da crise apesar da oscilação da cotação do real frente a outras moedas e de suspeitas políticas de incentivo ao consumo (que enriquece empresas automobilísticas, mas endivida a iludida "classe média" brasileira).

Não só o fluxo migratório tem sido maior na direção do Brasil, mas também aumenta o interesse de estrangeiros no potencial de nossas classes consumidoras. Uma das consequências deste reflexo do "boom" é o aumento de investimentos em negócios que atuam dentro do país, mas que inibem o desenvolvimento de empreendimentos nacionais. Um país rico em cacau consome chocolates da Nestlé, uma empresa de capital suíço.

Em parte, o fluxo de imigração convida a interpretações capciosas porque muitos desses trabalhadores estrangeiros chegam para ocupar postos elevados em empresas transnacionais. Algumas delas têm sede no país do imigrante, como é o caso dos cargos mais altos da Hyundai, automobilística que se instalou recentemente no estado de São Paulo. É muito difícil que um brasileiro ocupe o lugar de um sul-coreano na direção da empresa.

Estrangeiros continuam sendo bem-vindos, mas as políticas públicas primeiramente devem assegurar bons níveis de educação e emprego aos brasileiros. Do contrário, o sonho de muitos de nós seguirá limitado a trabalhar numa montadora estrangeira (até que faça demissão em massa) ou aprender inglês como exigência para atender brasileiros no supermercado.

*Bacharel em Relações Internacionais (Unesp) e mestre em Estudos Latino-americanos (Unam-México). Colaborador do Portal Vermelho.

Ali Mohaghegh: O futuro do Oriente Médio




Com o início do movimento despertar islâmico na região do Oriente Médio, os Estados Unidos da América e os seus aliados na região, temendo as ondas crescentes de sentimentos antiamericanos e antissionistas, tentaram insinuar ao mundo uma interpretação falsa deste movimento.

Por Ali Mohaghegh, em Folha de S.Paulo



Não dá para esconder, porém, que os governos derrubados na região eram amigos dos Estados Unidos da América e do regime sionista.

O ataque à embaixada do regime sionista no Cairo nos primeiros momentos de protesto era um sinal do movimento popular. Era um sinal da desesperança com os EUA e com o regime sionista, que não queriam ser odiados pelos povos da região.

Sem dúvida, não haverá nenhum lugar na região para os sionistas no futuro. E o regime, que certa época pretendia dominar o território entre os rios Nilo e Eufrates, agora deve se esconder atrás do muro de proteção.

O regime sionista de Israel tem a maior rede mundial de terrorismo do Estado e cometeu inúmeros crimes nos países da região, inclusive a matança do povo de Gaza, os assassinatos de forças de resistência nos diferentes países e assassinatos dos cientistas nucleares da República Islâmica do Irã. Esse regime agora está tentando desviar a opinião pública de perceber o seu verdadeiro caráter perigoso.

Hoje, com as evoluções nos países do Oriente Médio e da África, os povos perceberam que são inúteis e frustrantes as negociações com um regime que só conseguiu ficar em pé respaldado pelo Ocidente.

Hoje, os apoiadores do regime sionista devem suportar um peso bem maior do que no passado para apoiar Israel, pois os povos da região entraram no cenário político e projetaram o futuro da região.

Ao mesmo tempo, divergências internas apareceram, e esse regime sionista se deparou com a instabilidade interna.

O Ocidente é obrigado a revisar a sua política de apoio unilateral e injusta ao regime sionista. Eles estão bem conscientes de que os levantes populares no Oriente Médio e no norte de África começaram graças ao despertar islâmico e têm um caráter antissionista. Esta região jamais refletirá a dominação sionista no futuro.

Atualmente, os movimentos resistentes frente ao sionismo, graças ao movimento despertar islâmico, alcançaram superioridade estratégica em relação aos sionistas.

Hoje, com o afastamento dos governantes ditadores em alguns países da região que estavam compactuados com o regime sionista, os povos da região dizem gritando que a instalação do regime sionista não tem legitimidade no território palestino, mesmo que seja no tamanho de uma palma da mão. Estamos tratando de um regime que desconsiderou mais de cem resoluções e declarações da ONU.

Mesmo os países ocidentais não estão mais dispostos a assumir incondicionalmente o peso de seus apoios ao regime sionista. Especialmente os países europeus, que têm a paciência esgotada perante a atitude reivindicadora, extremista e irracional de Israel. Pouco a pouco, ouvimos as pessoas perguntando no Ocidente: "até quando nós devemos pagar o preço da desobediência de Israel?"

Agora, chegou uma oportunidade histórica: os soberanos no mundo devem aproveitar e colocar a história na sua direção certa, tirar o invasor da cena e devolver a pátria aos palestinos.

É importante que todos os palestinos unidos resistam frente ao inimigo. Somente com a união e coesão nacional e seguindo o islã o povo palestino poderá libertar os seus territórios invadidos e recuperar os seus direitos.

A Palestina é ocupada por estrangeiros. Será que a humanidade fará silêncio perante a ocupação do território de um povo por eles?

*Ali Mohaghegh é primeiro-secretário da Embaixada da República Islâmica do Irã no Brasil

Emir Sader: O asilo de Assange; sinais dos tempo




A crise diplomática gerada pela aceitação do asilo de Julian Assange pelo Equador reflete as novas condições do mundo contemporâneo. Em primeiro lugar, porque as mídias alternativas conseguiram grande vitória sobre o segredo diplomático das grandes potências, logrando colocar à disposição da opinião pública mundial mais de 5 mil documentos até ali considerados secretos.

Por Emir Sader*, em seu blog

Em segundo lugar, porque ao tentar fazer recair sobre o principal responsável por essa divulgação, Julian Assange, o peso da repressão e da censura, se viram às voltas com a solidariedade do governo do Equador, dos governos latino-americanos e de várias outras forças da própria Europa. Não puderam evitar, apesar das bravatas do governo britânico, o asilo de Assange na Embaixada do Equador e ainda tem que sofrer a campanha de protestos pela sua atitude e a favor do salvo-conduto que Assange necessita para seguir para o Equador.

Em terceiro lugar, um país progressista latinoamericano não apenas peitou o governo britânico, como aparece como território de abrigo de alguém que passou a representar a liberdade de expressão no mundo, enquanto que a Grã Bretanha aparece como seu perseguidor.

Em quarto lugar, a Grã Bretanha, com a atitude do seu governo, já é e continuará sendo objeto de campanhas no seu próprio país e em vários outros países do mundo, pela liberdade de Assange e contra a atitude do governo britânico.

Ao tomar a atitude que toma, o governo da Grã Bretanha faz uma aposta muito perigosa: a de ter que suportar, por tanto tempo quanto pretenda retardar o salvo-conduto para Assange, campanhas mundiais contra sua posição e a favor de Assange.

Se juridicamente o governo britânico pode retardar por um tempo indefinido a saída de Assange da embaixada equatoriano na direção do país que lhe concedeu asilo, a questão será decidida pelo grau de desgaste que a Grã Bretanha está disposta a sofrer por essas campanhas. Ela pode sustá-las concedendo de imediato o salvo-conduto a Assange ou ter que finalmente concedê-lo, quando esse desgaste já tenha se dado por um tempo mais ou menos longo.

Seja qual for o desfecho da situação, a Grã Bretanha – e, com ela, os EUA - saem perdedores, enquanto o Equador, a América Latina e Assange, sairão vencedores. Porque representam a liberdade de expressão, as formas alternativas de mídia, a ruptura de mecanismos de de diplomacia secreta.

Sinais de que os tempos mudaram no mundo. E, neste caso, para melhor.


* Emir Sader é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)

sábado, 7 de julho de 2012

Estados Unidos, Venezuela e Paraguai


A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela. A questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul. O artigo é de Samuel Pinheiro Guimarães.

1. Não há como entender as peripécias da política sul-americana sem levar em conta a política dos Estados Unidos para a América do Sul. Os Estados Unidos ainda são o principal ator político na América do Sul e pela descrição de seus objetivos devemos começar.


2. Na América do Sul, o objetivo estratégico central dos Estados Unidos, que apesar do seu enfraquecimento continuam sendo a maior potência política, militar, econômica e cultural do mundo, é incorporar todos os países da região à sua economia. Esta incorporação econômica leva, necessariamente, a um alinhamento político dos países mais fracos com os Estados Unidos nas negociações e nas crises internacionais.

3. O instrumento tático norte-americano para atingir este objetivo consiste em promover a adoção legal pelos países da América do Sul de normas de liberalização a mais ampla do comércio, das finanças e investimentos, dos serviços e de “proteção” à propriedade intelectual através da negociação de acordos em nível regional e bilateral.

4. Este é um objetivo estratégico histórico e permanente. Uma de suas primeiras manifestações ocorreu em 1889 na I Conferência Internacional Americana, que se realizou em Washington, quando os EUA, já então a primeira potência industrial do mundo, propuseram a negociação de um acordo de livre comércio nas Américas e a adoção, por todos os países da região, de uma mesma moeda, o dólar.

5. Outros momentos desta estratégia foram o acordo de livre comércio EUA-Canadá; o NAFTA (Área de Livre Comércio da América do Norte, incluindo além do Canadá, o México); a proposta de criação de uma Área de Livre Comércio das Américas - ALCA e, finalmente, os acordos bilaterais com o Chile, Peru, Colômbia e com os países da América Central.

6. Neste contexto hemisférico, o principal objetivo norte-americano é incorporar o Brasil e a Argentina, que são as duas principais economias industriais da América do Sul, a este grande “conjunto” de áreas de livre comércio bilaterais, onde as regras relativas ao movimento de capitais, aos investimentos estrangeiros, aos serviços, às compras governamentais, à propriedade intelectual, à defesa comercial, às relações entre investidores estrangeiros e Estados seriam não somente as mesmas como permitiriam a plena liberdade de ação para as megaempresas multinacionais e reduziria ao mínimo a capacidade dos Estados nacionais para promover o desenvolvimento, ainda que capitalista, de suas sociedades e de proteger e desenvolver suas empresas (e capitais nacionais) e sua força de trabalho.

7. A existência do Mercosul, cuja premissa é a preferência em seus mercados às empresas (nacionais ou estrangeiras) instaladas nos territórios da Argentina, do Brasil, do Paraguai e do Uruguai em relação às empresas que se encontram fora desse território e que procura se expandir na tentativa de construir uma área econômica comum, é incompatível com objetivo norte-americano de liberalização geral do comércio de bens, de serviços, de capitais etc que beneficia as suas megaempresas, naturalmente muitíssimo mais poderosas do que as empresas sul-americanas.

8. De outro lado, um objetivo (político e econômico) vital para os Estados Unidos é assegurar o suprimento de energia para sua economia, pois importam 11 milhões de barris diários de petróleo sendo que 20% provêm do Golfo Pérsico, área de extraordinária instabilidade, turbulência e conflito.

9. As empresas americanas foram responsáveis pelo desenvolvimento do setor petrolífero na Venezuela a partir da década de 1920. De um lado, a Venezuela tradicionalmente fornecia petróleo aos Estados Unidos e, de outro lado, importava os equipamentos para a indústria de petróleo e os bens de consumo para sua população, inclusive alimentos. 

10. Com a eleição de Hugo Chávez, em 1998, suas decisões de reorientar a política externa (econômica e política) da Venezuela em direção à América do Sul (i.e. principal, mas não exclusivamente ao Brasil), assim como de construir a infraestrutura e diversificar a economia agrícola e industrial do país viriam a romper a profunda dependência da Venezuela em relação aos Estados Unidos.

11. Esta decisão venezuelana, que atingiu frontalmente o objetivo estratégico da política exterior americana de garantir o acesso a fontes de energia, próximas e seguras, se tornou ainda mais importante no momento em que a Venezuela passou a ser o maior país do mundo em reservas de petróleo e em que a situação do Oriente Próximo é cada vez mais volátil. 

12. Desde então desencadeou-se uma campanha mundial e regional de mídia contra o Presidente Chávez e a Venezuela, procurando demonizá-lo e caracterizá-lo como ditador, autoritário, inimigo da liberdade de imprensa, populista, demagogo etc. A Venezuela, segundo a mídia, não seria uma democracia e para isto criaram uma “teoria” segundo a qual ainda que um presidente tenha sido eleito democraticamente, ele, ao não “governar democraticamente”, seria um ditador e, portanto, poderia ser derrubado. Aliás, o golpe já havia sido tentado em 2002 e os primeiros lideres a reconhecer o “governo” que emergiu desse golpe na Venezuela foram George Walker Bush e José María Aznar.

13. À medida que o Presidente Chávez começou a diversificar suas exportações de petróleo, notadamente para a China, substituiu a Rússia no suprimento energético de Cuba e passou a apoiar governos progressistas eleitos democraticamente, como os da Bolívia e do Equador, empenhados em enfrentar as oligarquias da riqueza e do poder, os ataques redobraram orquestrados em toda a mídia da região (e do mundo).

14. Isto apesar de não haver dúvida sobre a legitimidade democrática do Presidente Chávez que, desde 1998, disputou doze eleições, que foram todas consideradas livres e legítimas por observadores internacionais, inclusive o Centro Carter, a ONU e a OEA. 

15. Em 2001, a Venezuela apresentou, pela primeira vez, sua candidatura ao Mercosul. Em 2006, após o término das negociações técnicas, o Protocolo de adesão da Venezuela foi assinado pelos Presidentes Chávez, Lula, Kirchner, Tabaré e Nicanor Duarte, do Paraguai, membro do Partido Colorado. Começou então o processo de aprovação do ingresso da Venezuela pelos Congressos dos quatro países, sob cerrada campanha da imprensa conservadora, agora preocupada com o “futuro” do Mercosul que, sob a influência de Chávez, poderia, segundo ela, “prejudicar” as negociações internacionais do bloco etc. Aquela mesma imprensa que rotineiramente criticava o Mercosul e que advogava a celebração de acordos de livre comércio com os Estados Unidos, com a União Européia etc, se possível até de forma bilateral, e que considerava a existência do Mercosul um entrave à plena inserção dos países do bloco na economia mundial, passou a se preocupar com a “sobrevivência” do bloco.

16. Aprovado pelos Congressos da Argentina, do Brasil, do Uruguai e da Venezuela, o ingresso da Venezuela passou a depender da aprovação do Senado paraguaio, dominado pelos partidos conservadores representantes das oligarquias rurais e do “comércio informal”, que passou a exercer um poder de veto, influenciado em parte pela sua oposição permanente ao Presidente Fernando Lugo, contra quem tentou 23 processos de “impeachment” desde a sua posse em 2008.

17. O ingresso da Venezuela no Mercosul teria quatro consequências: dificultar a “remoção” do Presidente Chávez através de um golpe de Estado; impedir a eventual reincorporação da Venezuela e de seu enorme potencial econômico e energético à economia americana; fortalecer o Mercosul e torná-lo ainda mais atraente à adesão dos demais países da América do Sul; dificultar o projeto americano permanente de criação de uma área de livre comércio na América Latina, agora pela eventual “fusão” dos acordos bilaterais de comércio, de que o acordo da Aliança do Pacifico é um exemplo.

18. Assim, a recusa do Senado paraguaio em aprovar o ingresso da Venezuela no Mercosul tornou-se questão estratégica fundamental para a política norte americana na América do Sul.

19. Os líderes políticos do Partido Colorado, que esteve no poder no Paraguai durante sessenta anos, até a eleição de Lugo, e os do Partido Liberal, que participava do governo Lugo, certamente avaliaram que as sanções contra o Paraguai em decorrência do impedimento de Lugo, seriam principalmente políticas, e não econômicas, limitando-se a não poder o Paraguai participar de reuniões de Presidentes e de Ministros do bloco. 

Feita esta avaliação, desfecharam o golpe. Primeiro, o Partido Liberal deixou o governo e aliou-se aos Colorados e à União Nacional dos Cidadãos Éticos - UNACE e aprovaram, a toque de caixa, em uma sessão, uma resolução que consagrou um rito super-sumário de “impeachment”. 

Assim, ignoraram o Artigo 17 da Constituição paraguaia que determina que “no processo penal, ou em qualquer outro do qual possa derivar pena ou sanção, toda pessoa tem direito a dispor das cópias, meios e prazos indispensáveis para apresentação de sua defesa, e a poder oferecer, praticar, controlar e impugnar provas”, e o artigo 16 que afirma que o direito de defesa das pessoas é inviolável. 

20. Em 2003, o processo de impedimento contra o Presidente Macchi, que não foi aprovado, levou cerca de 3 meses enquanto o processo contra Fernando Lugo foi iniciado e encerrado em cerca de 36 horas. O pedido de revisão de constitucionalidade apresentado pelo Presidente Lugo junto à Corte Suprema de Justiça do Paraguai sequer foi examinado, tendo sido rejeitado in limine. 

21. O processo de impedimento do Presidente Fernando Lugo foi considerado golpe por todos os Estados da América do Sul e de acordo com o Compromisso Democrático do Mercosul o Paraguai foi suspenso da Unasur e do Mercosul, sem que os neogolpistas manifestassem qualquer consideração pelas gestões dos Chanceleres da UNASUR, que receberam, aliás, com arrogância.

22. Em consequência da suspensão paraguaia, foi possível e legal para os governos da Argentina, do Brasil e do Uruguai aprovarem o ingresso da Venezuela no Mercosul a partir de 31 de julho próximo. Acontecimento que nem os neogolpistas nem seus admiradores mais fervorosos - EUA, Espanha, Vaticano, Alemanha, os primeiros a reconhecer o governo ilegal de Franco - parecem ter previsto.

23. Diante desta evolução inesperada, toda a imprensa conservadora dos três países, e a do Paraguai, e os líderes e partidos conservadores da região, partiram em socorro dos neogolpistas com toda sorte de argumentos, proclamando a ilegalidade da suspensão do Paraguai (e, portanto, afirmando a legalidade do golpe) e a inclusão da Venezuela, já que a suspensão do Paraguai teria sido ilegal.

24. Agora, o Paraguai procura obter uma decisão do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul sobre a legalidade de sua suspensão do Mercosul enquanto, no Brasil, o líder do PSDB anuncia que recorrerá à justiça brasileira sobre a legalidade da suspensão do Paraguai e do ingresso da Venezuela.

25. A política externa norte-americana na América do Sul sofreu as consequências totalmente inesperadas da pressa dos neogolpistas paraguaios em assumir o poder, com tamanha voracidade que não podiam aguardar até abril de 2013, quando serão realizadas as eleições, e agora articula todos os seus aliados para fazer reverter a decisão de ingresso da Venezuela. 

26. Na realidade, a questão do Paraguai é a questão da Venezuela, da disputa por influência econômica e política na América do Sul e de seu futuro como região soberana e desenvolvida.

Fonte: Carta Maior